Visitar Jaén, capital do azeite, em 48 horas

Jaén, Espanha.

Chegar a Jaén, capital de umas das províncias da Andaluzia (Espanha), é atravessar um mar de oliveiras, mais precisamente 590.000 hectares que se espalham pela província, representando 25% da superfície espanhola dedicada a esta cultura. Assim sendo não é de estranhar que em qualquer parte se encontrem referências a esta base económica.

Em Jaén e à sua volta existem diversas evidências arqueológicas sobre o povo que habitava o sul peninsular antes da chegada dos romanos, tendo-se construído que alberga alguns dos principais testemunhos deste povo, contemporâneo dos celtas, ao qual foi permitido continuar as suas tradições sobre o protetorado de Roma. Os iberos, são assim o conjunto de tribos com semelhantes técnicas, incluídas a escrita, que habitaram também o Alentejo e Algarve, e que na província de Jaén tinham importantes cidades, cujas escavações muito têm contribuído para o melhor conhecimento da sua cultura. Assim sendo o Museu Ibero é uma das visitas obrigadas em Jaén (entrada gratuita/2019).

Esculturas no Museu Ibero, Jaén, Espanha.

No interior da reprodução da Câmara de Toya, Museu de Jaén, Espanha.

Também situado na avenida da Estación, existe o Museu de Jaén, com um importante espólio de peças pré-históricas, com destaque também para a arqueologia ibera, e onde se destaca a reprodução da câmara funerária de Toya, numa escala 1:1 o que permite entrar nela! No piso superior o museu completa-se com uma coleção de Belas Artes (entrada gratuita/2019).

Outra das experiências que surpreende o viajante é a forma como são servidas as "tapas", havendo muitos locais que dispõem de ementas para que pessoalmente escolhas o petisco que acompanha a tua cerveja, vinho ou refrigerante. Um dos petiscos mais apreciados, contando com estabelecimentos especializados, é o "flamenquín", rolo de bife de porco e presunto panado e frito. Cada taberna ou bar tem a sua especialidade, e o ideal é ir percorrendo-os na descoberta das suas iguarias próprias, sendo obrigatório passar pelas ruelas Arco del Consuelo ou a Bernardo López, onde se concentram alguns locais clássicos de Jaén (Taberna Gorrión ou Taberna La Manchega).



Um dos percursos vertebrais a realizar em Jaén corresponde ao trajeto urbano inicial do Caminho Moçárabe de Santiago, que une várias localidades andaluzas com Mérida, para seguir depois em direção a Santiago de Compostela. Este caminho tem inicio na Catedral, dedicada à Assunção. Trata-se de um equilibrado edifício, que espera ser classificado como Património Mundial, extensão do núcleo já classificado formado por Úbeda e Beaza, sobre o qual já existe um apontamento no caderno.
Catedral da Assunção, Jaén, Espanha.

Catedral da Assunção, Jaén, Espanha.
O encarregado de erguer este templo renascentista será Andrés de Vandelvira, mestre que desenha um edifício salão, que passados os anos se terminará com uma fachada barroca, e a construção da igreja anexa do Sacrário, como resultado das obras necessárias para reparar os danos do terremoto de 1755.

Catedral da Assunção, Jaén, Espanha.
Se o exterior encanta o interior deslumbra pelas soluções encontradas, na forma harmoniosa como se complementam o renascimento e o barroco. Ao entrar os olhos prendem-se nas abóbadas, perdendo-se depois na cúpula do cruzeiro que se eleva a mais de 50 metros de altura. Preenchendo quase por completo a nave central surge o coro catedralício (sec. XVIII), um dos maiores de Espanha com 148 assentos de madeira de nogueira com belos baixos-relevos.

O retábulo da capela-mor (sec. XVI) alberga o Santo Rosto (não é o único em Espanha!), uma relíquia que segundo a tradição é o lenço com que a Verónica limpou o rosto de Jesus Cristo no seu caminho para o Calvário, deixando nele impresso a sua face. Não há fatos que o corroborem nem uma história oficial para a presença desta relíquia na cidade de Jaén, pelo que a única base de certificação é a fé.

O espaço museológico e a visita à catedral completam-se com a sacristia, a sala do cabido, o panteão dos cónegos e a subida à galeria, de onde se têm vistas espetaculares tanto para dentro da catedral como para a cidade e arredores (entrada catedral 5,00€/2019).

Ainda na praça de Sta. Maria, em frente à catedral, situam-se o Ayuntamiento (sec. XX) e o Palácio Episcopal (sec. XX). O seguinte ponto de visita é o Palácio Municipal de Cultura (entrada gratuita/2019), localizada no Caminho Moçárabe que recorre a rua Maestra, e que corresponde ao local onde existiu um antigo paço quinhentista do Condestável de Castela, D. Miguel Lucas de Iranzo, do qual apenas sobrevive o teto de madeira de influência moçarabe (alfarje). Continuando agora pela rua Madre de Dios, chega-se ao Arco de San Lorenzo (entrada gratuita integrada em visita solicitada no posto de turismo/2019), parte sobrevivente de uma antiga igreja (sec. XIII) em cujo interior existe uma capela com azulejos e gessos moçárabes.

Refugio antiáereo de Jaén, Espanha.
Cruzando por debaixo do arco e seguindo pela rua Almendros Aguilar, chega-se ao Refugio antiáereo (entrada gratuita integrada em visita solicitada no posto de turismo/2019), construído nos primeiros anos da Guerra Civil espanhola, e que serve de lição histórica para uma época não muito distante e memorial aos mortos causados pelos aviões alemães ao serviço do ditador Franco. Continuando na mesma rua atinge-se a igreja de San Juan (sec. XIV) adaptada de uma antiga mesquita, como se depreende da sua torre sineira que foi antigo minarete, ou ainda dos restos do arranque de outro minarete na esquina da rua San Juan com a rua Martinez Molina, por onde seguirá o nosso roteiro em direção ao palácio Villardompardo.

Banhos árabes de Jaén, Espanha.
O palácio Villardompardo (sec. XVI) foi construído pelo conde D. Fernando de Torres y Portugal, descendente da casa de Avis, que aproveita como base da sua nova residência os antigos banhos árabes (sec. XI) ficando estes esquecidos até ao sec. XIX, que após obras de restauro são um dos imperdíveis em Jaén, considerando-se os maiores na Europa (entrada gratuita/2019).

A próxima etapa é o antigo Real Mosteiro de S. Domingos, na rua homónima, e adaptado hoje a Arquivo Histórico Provincial, e do qual subsiste a antiga igreja (não visitável) e o claustro (entrada gratuita/2019) quadrado suportado por 60 colunas dóricas e arcos.

Pátio de Abluções da antiga mesquita da Madalena, Jaén, Espanha.
Logo ali ao lado encontra-se o Lagarto da Madalena, uma curiosa fonte com a escultura de um grande lagarto ou crocodilo que recorda a lenda da existência na fonte de mergulho da Madalena de um enorme lagarto que comia miúdos e borregos e que foi morto por engulir explosivos na tentativa matreira de o caçar! A Fonte da Madalena, visível desde o arco triunfal que a encerra, foi uma das principais fontes de abastecimento de água de Jaén ao longo dos séculos. Em frente da fonte a igreja homónima, provavelmente a mais antiga da cidade, e que claramente foi mesquita, facilmente legível no seu pátio de abluções ou pelos arranques do minarete.

Toca descer agora a rua Sta. Úrsula e a rua Carnero para chegar ao antigo Hospital de S. João de Deus, onde se pode visitar o belo claustro renascentista (entrada gratuita/2019), e daí seguir em direção ao Bairro da Santa Cruz, que corresponderia à judiaria. A igreja de Sto. André (sec. XIII) identificada como a antiga sinagoga ou algumas das dependências do Real Mosteiro de Sta. Clara (sec. XV) construídas sobre os espaços da judiaria marcam este bairro de ruas estreitas e empinadas que terminam na praça Dr. Blanco Najera, onde são visíveis restos da muralha, e uma menorá como testemunho e recordação das famílias judias.

Na praça Dean Mazas encontra-se o curioso edifício do BBVA adaptado do antigo palácio de Vilches (sec. XVI) e única recordação da antiga "plaza mayor", e que surpreende pela decoração renascentista. Passando a praça do Pósito, nas proximidades do mercado onde se podem degustar algum petisco e conhecer produtos locais, surge o enorme edifício do Palácio da Diputación (sec. XIX), erguido sobre o antigo convento franciscano desamortizado (entrada gratuita/2019).

Basílica de Sto. Ildefonso, Jaén, Espanha.
Atravessando "la carrera", nome popular da rua Bernabé Soriano, atinge-se a basílica de Sto. Ildefonso (sec. XIII/XVIII), sitio de culto mariano por aqui ter aparecido a Virgem Maria, sendo venerada sob a invocação de Virgem de Capilla. No exterior destacam as portadas de diferentes épocas, a principal barroca, a lateral renascentista e nas traseiras a primitiva portada gótica. No interior a fábrica gótica serve de suporte à decoração barroca, com destaque para a capela da Virgem da Capilla, padroeira de Jaén.

Seguindo descendo em direção ao Convento das Bernardas e à única porta sobrevivente da muralha de Jaén denominada do Santo Ángel, onde termina este roteiro pelo centro histórico de Jaén.

Castelo de Sta. Catarina, Jaén, Espanha.
Contudo não se pode abandonar esta cidade sem subir ao castelo de Sta. Catarina, situado a 820m de altitude, e que desde muito cedo se constituiu como assentamento e local de proteção dos primeiros habitantes da zona. As estruturas atuais conformam dois espaços correspondendo o alcácer velho, adaptado a pousada histórica, e o alcácer novo que serve de espaço museológico (entrada 3,50€/2019). Para terminar a visita existem dois locais que se constituiem nos miradouros ideais sobre Jaén, o primeiro na subida, na estrada de circunvalação nº 78, local ideal para fotografar a fachada da catedral, e o outro junto à cruz de Sta Catarina, na continuação do castelo, com uma vista fantástica sobre a cidade.

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